O lar é frequentemente considerado um ninho de proteção e segurança, mas os dados demonstram que, para muitas crianças brasileiras, ele é um cenário de violência e privação emocional. A violência intrafamiliar é o resultado histórico de relações familiares baseadas numa profunda assimetria de poder, em que o adulto usa a criança para satisfazer seus próprios desejos (Habigzang & Caminha, 2021, p. 21).
As estatísticas recentes são um chamado à sobriedade. Dados obtidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025, p. 188), referentes ao ano de 2024, revelam que 65,7% dos estupros no Brasil ocorrem dentro da residência das vítimas, e em 59% dos casos envolvendo crianças de até 13 anos, o agressor é um familiar. Esse cenário é agravado por uma herança cultural patriarcal que se acostumou a enxergar a criança como objeto e "propriedade" do provedor (Ministério dos Direitos Humanos, 2018, p. 42).
O abuso sexual sobrevive nas trevas da chamada "Síndrome do Segredo", em que o agressor manipula a confiança da criança e utiliza ameaças para impedir que a verdade venha à luz (Habigzang & Caminha, 2021, p. 32). A criança, envolvida pela culpa e pelo medo, mantém-se em silêncio. Esse mecanismo, muitas vezes, possibilita a continuidade da violência por anos a fio.
Quando os fatos vêm à tona, ainda, é muito comum que o responsável não agressor seja omisso e negligente, não levando os fatos para as autoridades competentes. Assim, o silêncio é mantido para preservar a aparência de uma "boa família" ou por dependências econômicas e medos profundos (Habigzang & Caminha, 2021, p. 31, 35).
Por isso, a importância de vigiar o próprio lar e estar atento a eventuais sinais de violência sexual apresentados pela criança. Havendo qualquer suspeita, denuncie!
Ao adulto que crê em Jesus
Os cristãos são chamados a um padrão ético de vida, sendo que Deus ama a verdade (Salmos 51:6). Aqueles que O adoram devem fazê-lo em espírito e em verdade (João 4:24). Isso significa que não deve haver espaço para a obscuridade nas famílias. A Palavra ensina que "o verdadeiro amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade" (1 Coríntios 13:6). Proteger um agressor sob o pretexto de manter a paz familiar é uma distorção do amor cristão, pois o amor bíblico confronta a injustiça e busca a cura por meio da verdade. O compromisso com a verdade de Deus deve nos fazer gritar por aqueles que foram silenciados.
Por Fernanda Trizzotti
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Referências
BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos. Violência contra Crianças e Adolescentes: Análise de Cenários e Propostas. Brasília: MDH, 2018.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025.
HABIGZANG, Luísa F.; CAMINHA, Renato M. Abuso sexual contra crianças e adolescentes: conceituação e intervenção clínica. Porto Alegre: Casa do Psicólogo, 2021.
Fernanda Trizzotti
idealizadora do projeto debaixo do sol
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